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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

INOCENTE OU REALISTA?



"Prevenir o estresse é saudável (o tormento pelo tormento não é recomendável para ninguém), mas ser suscetível, sentar-se e chorar ante o primeiro tropeço e querer que a vida seja gratificante 24 horas por dia é, definitivamente, infantil." - Walter Riso

Certamente o mundo não é um mar de rosas, mas se sua visão lhe indicar que pode tirar o melhor proveito (ou lição) de qualquer situação, então não estaria sendo, de qualquer forma, gratificante?

A diferença está na habilidade de você ser capaz de estar consciente de que é a variável mais importante desta equação. Está em suas mãos o poder de decidir ativamente seu futuro, ao invés de navegar na tempestividade do acaso.

Quanta gente segue por aí reclamando da crueldade da vida? Sei que tem algumas pessoas em mente quando digo isso, ou ainda, se reconhece como uma vítima das circunstâncias. O mundo nunca sorri para essas pessoas. Porém, acabamos percebendo que as regras criadas para que se sintam felizes, são totalmente desalinhadas com seu estilo de vida, tornando quase impossível uma vida na qual se sintam bem e gratas pelo que têm.

Existem aqueles que ainda, por já se considerarem sobreviventes em um mundo de caos, sobrevivem em modo super realista, ou ainda, pessimista, pensando antecipadamente em todas as possibilidades de algo dar errado ou de estar sendo enganado ou ainda, parecendo inocente, que sempre atiram a primeira pedra e acabam se fechando de qualquer possibilidade, boa ou ruim. Calma, amigo, também existe muita coisa boa lá fora.

Não digo aqui que alguém deve ser controlador ou manipulador a ponto de querer prever tudo e estar preparado para agir, mas é importante deixar claro o que é importante para você e onde quer chegar, para que não desperdice oportunidades valiosas, afinal a sorte é o encontro do preparo com a oportunidade. Ou não!?

segunda-feira, 29 de julho de 2013

QUAL O SENTIMENTO MAIS IMPORTANTE?

Uma pequena parábola para reflexão. Grande abraço!

Imagem: Parêntesis Studio (parentesis.com.br)


Perguntou o aprendiz ao venerando sábio:

- Mestre, qual é o sentimento mais importante para a vida do homem?

O Mestre, saindo da sua meditação, pergunta ao aprendiz:

- O que diz os seus conhecimentos?

- De tudo o que aprendi até aqui, creio que o mais importante para o homem é a Sabedoria, pois sem ela, o homem erra muito, padece dores que poderiam ser evitadas. Disse o aprendiz cheio de si.

O mestre responde:

- Sabedoria não se adquire confinado nos estudos, é preciso viver a vida em sua totalidade para adquirir tamanho conhecimento. O sábio sabe que nada sabe, por isso, Sabedoria não pode ser mais importante na vida de um homem, pois ela é decorrência do seu tempo de vida, das suas experiências.

- E o que dizes do amor?
Pergunta o Mestre ao jovem aprendiz.

- O amor é como uma faca afiada, de um lado é útil para cortar os alimentos, para o artesão trabalhar o couro e até a madeira, mas por outro, quando se enche de orgulho, pode ferir e até matar.Quantos não andam por ai sofrendo por causa do amor...

- Engano seu, alma querida! O amor é o maior sentimento que carregamos em nossa pequena bagagem da eternidade. Acontece que o amor, como fruto da evolução de cada um de nós, precisa passar pelo crescimento espiritual de cada um. Assim, os que estão engatinhando na espiritualidade, amam a si mesmos, e querem possuir o que acreditam amar. Depois, aprendem a compartilhar e já conseguem amar algumas pessoas, sem querer a posse da alma.

Mas, somente os que andaram por muitos caminhos, que já foram visitados pela dor da perda, do remorso, da angústia do querer e não ter, ou do perder um ente muito querido, despertam para o amor sublime, que é aquele que tudo espera, tudo confia, tudo entrega, tudo perdoa, tudo é amor.

Essa forma de amar será a salvação do mundo, e um dia, todos, sem exceção, aprenderão amar assim.
Mas, por enquanto, ainda não é o sentimento mais importante na vida dos homens.

- Não!
O aprendiz espantado quer saber então qual seria esse sentimento mais importante que o amor para a vida dos homens.

- O sentimento mais importante é a ALEGRIA, irmã do CONTENTAMENTO, é aquela que independe de dinheiro, posição social, cor ou raça, credo ou conhecimento. Toda a SABEDORIA e até a SAÚDE plena, passa pela ALEGRIA. Aquele que encontra a ALEGRIA e deixa-se levar por ela, passa por dificuldades com mais serenidade, enfrenta os revezes com CERTEZA de vitória, é a base da Fé, o caminho seguro que leva a ELEVAÇÃO.

A "SOMBRA" não suporta os ALEGRES, o "MAL" teme esse sentimento, assim como desconhece o AMOR, a ALEGRIA é antídoto contra às perseguições espirituais. E o mais importante: a alegria está disponível para qualquer pessoa, basta que ela ILUMINE seus olhos e em tudo veja o lado "melhor", porque toda situação tem dois lados, sempre, e cabe ao ser humano descobrir nas rosas a preciosidade do perfume, o viço da cor, a beleza do seu porte majestoso, e deixar de lado os espinhos que são a sua proteção.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

SUPERE OS SEUS PENSAMENTOS NEGATIVOS E BARREIRAS EMOCIONAIS

Quando surgem alguns problemas na nossa vida, inevitavelmente surgem-nos pensamentos negativos. No entanto, os pensamentos negativos não têm necessariamente de causar dor emocional, desespero e angústia. Tudo depende da forma como se gere os conteúdos desses pensamentos negativos e a influência que têm nas nossas atitudes, decisões e comportamentos. O problema que enfrentamos relativamente aos pensamentos negativos que nos surgem na mente, não é criado pelos próprios pensamentos negativos, mas sim com aquilo que fazemos com eles. Infelizmente, a compreensão do que se passa na nossa mente nem sempre leva à mudança de comportamentos autodestrutivos (por exemplo, vícios, procrastinação, explosões de raiva) ou remoção de medo. Saber porque você está deprimido, ansioso ou a experienciar dor emocional não significa necessariamente que você se sinta melhor. No entanto, se você se comprometer com atividades promotoras de bem-estar, como, manter-se ativo, ajudar os amigos, os filhos ou familiares, envolver-se em passatempos e atividades criativas, praticar exercício físico, diminuirá a possibilidade de concentrar-se sobre os sentimentos negativos. Entender o que é mais significativo para você na vida (tal como a sua saúde, família ou trabalho) e comprometer-se a tomar ações específicas para atingir as suas metas, pode colocá-lo no controle da sua vida.



ACEITAÇÃO E COMPROMISSO

Quando passamos por dificuldades, quando a nossa vida não está tomando o rumo que desejamos ou não estamos a conseguir perceber o que se passa connosco, ou porque razão nos sentimos de uma determinada forma, é possível que façamos de nós mesmos o bode expiatório, que nos voltemos contra nós, que olhemos para nós com resignação, conduzindo-nos à diminuição de nós mesmos. Este processo é contraproducente para a recuperação. Leva a que a pessoa se afunde ainda mais e entre numa espiral de negatividade.

Perante tal cenário, importa que a pessoa se aceite e aceite também o momento e a situação em que se encontra. A aceitação da realidade que se enfrenta pode ser libertadora, pode permitir o inicio da recuperação. A Terapia da Aceitação e Compromisso (ACT em Inglês) é uma intervenção de curto prazo que pode ser utilizado na psicoterapia. Esta terapia combina os princípios da Atenção Plena (Mindfulness) com técnicas de motivação e mudança de comportamento. ACT pode ajudá-lo a sair de ciclos de pensamento negativo, aceitar o que você não pode controlar, parar de fugir da dor, e ser mais capaz de tolerar o risco, a falha e a incerteza para colher os frutos de uma vida  significativa.

Esta abordagem tem vindo a ser eficaz no tratamento das perturbações da ansiedade, como a fobia social, ataques de pânico, ansiedade generalizada, e das perturbações de humor como a depressão. É igualmente eficaz para pessoas que não conseguem alcançar o bem-estar que desejam devido a situações problemáticas na sua vida. Pessoas que se sintam afetados por um estado de stress agudo ou prolongado. Pessoas que desejam melhorar a sua autoimagem, autoestima e autoconfiança.



Alguns princípios fundamentais da Terapia da Aceitação e Compromisso são:



EXPERIENCIAR O MOMENTO PRESENTE

Esta abordagem tem na sua base a ideia de que não devemos repudiar a experiencia que estamos a viver no momento. Que é contraproducente suprimir ou evitar as sensações desagradáveis que sentimos no corpo, como também não é aconselhável esforçar-se demasiado para não ter um  determinado pensamento negativo, dado que não conseguimos evitar que nos apareça na mente. O que conseguimos sim é orientar a nossa atenção para outros pensamentos criados por nós mesmos. Esta abordagem usa exercícios para ajudá-lo a permanecer presente e focado na respiração ou nos seus pensamentos e sentimentos, ao invés de tentar evitá-los. Os sentimentos são momentâneos, são temporários, e alteram aquilo que sentimos no nosso corpo, assim como aquilo que nos aparece na mente. No entanto, por causa de experiências aprendidas na juventude, muitas vezes desenvolvemos julgamentos sobre as emoções e sobre o que significam para nós quando as estamos a sentir. Levando-nos a identificarmo-nos com elas, conduzindo-nos a frases do gênero:  ”Estou deprimido novamente” ou “Sou um perdedor“.

Quando a pessoa aprende a focar e a descrever as sensações físicas de dor ou ansiedade (por exemplo, sinto o meu peito apertado), ao invés de se sentir impotente ou tentado a distrair-se, você pode perceber que aquilo que está a sentir, apesar de ser desagradável, é suportável, e que acabará por passar. Conseguir suportar e experienciar a intensidade dos sentimentos a surgir e a desaparecer, permite que passe a percebê-los como experiências passageiras, e não como você julga que é na sua essência.



ACEITAÇÃO DA REALIDADE

A aceitação é muitas vezes confundida com passividade. De acordo com a abordagem da Terapia da Aceitação e Compromisso, aceitação significa: “estar disposto a experimentar o momento presente, mesmo que isso não seja o que a pessoa tenha escolhido.” Isso também significa aceitar as suas experiências de vida e a sua história, ficando também ciente que você não pode livrar-se  completamente das experiências de dor e sofrimento. No entanto, o que importa levar em consideração é que, você tem sempre uma escolha sobre o que fazer com aquilo que está a acontecer na sua vida no momento presente.

Perante a dificuldade, a experiência de dor emocional, perante os recuos, os fracassos e a instabilidade emocional é importante abrir-se à aceitação, assumir que a condição humana contém tanto a experiência de sofrimento como de alegria, e que isso é um fato. Ou seja, você não é o seu sofrimento, não precisa ser limitado por ele e pelos sentimentos e pensamentos daí decorrentes. Pelo contrário, você  pode viver numa situação desconfortável por um tempo. É preciso esforço, comprometimento e ações para mudar os seus caminhos mentais (a sua estrutura neurológica) até que consiga comportar-se de forma diferente.

Aceitação, implica estar disposto a não evitar pensamentos desagradáveis, sentimentos ou situações que exigem a sua atenção, como por exemplo alguns maus hábitos, vícios, raiva ou procrastinação. Se você quer melhorar a sua saúde mental e força emocional, primeiro precisa ser capaz de olhar e experimentar o impacto do seu sofrimento, entendê-lo, aceitá-lo, para que possa fazer algo para melhorar. Ao mesmo tempo, você pode comprometer-se a fazer o que necessita ser feito através de pequenos passos, cada dia, para ser um pouco mais saudável e caminhar rumo à superação do seu problema pessoal ou problema psicológico. Levantar o véu da autosabotagem pode ser um processo prolongado no tempo, mas certamente valerá a pena.



DESAPEGO: SEPARE-SE DOS SEUS PENSAMENTOS E SENTIMENTOS

Você não é os seus pensamentos, sentimentos e sensações corporais. Na ACT a pessoa aprende estratégias e exercícios que a leva a ficar ciente daquilo que está a acontecer-lhe sem fundir-se à experiência do momento. A pessoa passa a ser capaz de retirar-se, separar-se e desligar-se dos pensamentos, sentimentos, imagens e memórias desagradáveis e incapacitantes. O termo correto é Desfusão Cognitiva. A pessoa torna-se num “observador do seu ego” para que possa observar os seus pensamentos e experiências a partir de um ponto de vista mais objetivo.

Quando você entra num ciclo de negatividade, de autocrítica exacerbada, quando ativa a mentalidade de vítima, quando começa a evitar coisas que gostava, quando o seu pensamento se torna catastrófico, tende a sentir os seus pensamentos como verdadeiros. Na verdade, eles podem não ser. Certamente, são aquilo que em psicologia apelidamos de mensagens enganosas do cérebro. Ou seja, aquilo que você sente e pensa é influenciado pelas suas expetativas futuras, experiências passadas e autodefinição. Você não precisa deixar os seus pensamentos e sentimentos determinarem o seu comportamento ou quem você é ou pretende vir a ser. Você pode escolher como agir, com base na sua experiência direta (o que você vê, ouve, sente, independentemente dos seus julgamentos acerca daquilo que está acontecendo no seu ser) e seus valores fundamentais. Você pode pensar acerca de um determinado pensamento que lhe surge na mente: “É construtivo, é verdadeiro, serve-me?” e assim por diante. Com base na resposta, você pode optar por levar o pensamento em consideração ou deixá-lo passar, desapegando-se dele. Em vez de fundir-se aos seus pensamentos negativos e depreciativos, você pode optar por mudar a forma como você interage com eles. Pensar que você pode estar a ser estúpido, não faz de você estúpido,  é apenas um pensamento passageiro na sua cabeça.



DEFINIR OS VALORES CENTRAIS

Os valores centrais são as coisas na vida que são mais significativas para nós e que enriquecem as nossas vidas. Eles incluem coisas como ser saudável, ser justo, cuidar das nossas famílias, ser responsável, ser simpático, contribuir para o bem da sociedade. Quando as pessoas vêm à minha consulta psicológica, muitas vezes estão tão sobrecarregadas com angústias, sentimentos de autopiedade ou raiva, ou dor emocional, que perderam a noção daquilo que pretendem e do que as deixa realizadas e preenchidas. Mesmo que verbalizem para si mesmo “Eu quero sentir-me bem, e recuperar a minha vida“, o seu comportamento no dia-a-dia não reflete isso, porque estão excessivamente preocupadas com o evitamento do stress diário, pensamentos catastróficos sobre o passado, os eventos dolorosos, ou tentar impedir uma possível ameaça no futuro. Na ACT são propostos exercícios que orientam a pessoa a definir os seus valores e objetivos de vida, e com isso ganhar motivação para se reconectar com as atividades e com as pessoas que promovem esses valores nas suas vidas.



COMPROMISSO COM A AÇÃO MOTIVADA 

Para florescermos, para vivermos uma vida autêntica e com um significado, é preciso correr riscos, abandonar a zona de conforto, e tolerar a incerteza e a ansiedade. Significa enveredar por um conjunto de ações motivadas e guiadas pelos nossos valores centrais. Importa alinhar os valores com as ações, para que através da contínua ação a vida se torne rica, preenchida e significativa.

Em consulta a pessoa é conduzida a perspetivar um cenário em que se vê a ter como porta estandarte os seus valores, visualizando as suas ações a serem decorrentes daquilo que gosta, pretende realizar e perspetiva como um propósito de vida. O foco está em agir, não esperar um resultado particular, uma vez que os resultados podem, pelo menos estar parcialmente fora do nosso controle. Para ser bem sucedido não tem necessariamente que sentir-se a todo o tempo feliz, alegre ou sem dor. Para viver uma vida plena, apesar de podermos ter momentos de ansiedade ou dor emocional, importa sobretudo suportar os maus momentos tendo como suporte a ideia de que  agimos de acordo com o nosso objetivo. Ao enfrentar o que você teme, o medo acabará por diminuir, e, mesmo que isso possa não acontecer, você vai saber que fez o seu melhor com o que você tem. Isso permite que se movimente na sua vida mais seguro de si mesmo, livre de arrependimentos e sentimentos de culpa.



CONCLUINDO

Na minha experiência na aplicação da ACT, posso dizer que é extremamente eficaz com pessoas que vivem confusas, desesperadas e com dificuldade de mudar hábitos que se têm comprovado como inibidores à felicidade e realização de objetivos. A pessoas passam a ter um maior controle sobre os seus eventos internos, sentindo-se mais capazes para terem um papel mais ativo nas suas vidas. Eu uso os princípios e intervenções baseadas na ACT com muitos clientes para ajudá-los a tolerar situações estressantes, incapacitantes ou desesperantes, no sentido de focarem a sua atenção naquilo que podem e conseguem mudar. ACT pode criar uma base para a esperança e ajudá-lo a suportar a dor envolvida na mudança e na superação.

Grande abraço!

Adaptação do texto:  Miguel - Escola Psicologia 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

DO OUTRO LADO DA JANELA

Ontem, conversando com meu pai sobre as coisas da vida ele me lembrou de uma história muito bonita que já havia conhecido há muito tempo. Ao ouvir a história novamente, logo me vieram à mente alguns conceitos que ouço diariamente de pessoas que se julgam realistas ou céticas e sempre buscam ver para crer. A maioria destas pessoas, entre as que conheço, passou por grandes decepções ideológicas, principalmente religiosas e não se permitem acreditar novamente sem que saibam exatamente onde estão pisando. Por isso, procuram explicações em tudo e acabam perdendo muito da alegria de viver o momento.


Pequenas coisas como apreciar a caricatura torta que seu sobrinho pequeno fez para você, só são possíveis de serem apreciadas se você avaliar de forma não-cartesiana, se você tem a sensibilidade de olhar as qualidades apesar dos defeitos, se você tem a grandeza de reconhecer sua parte naquele sorriso.



Permita-se viver a vida em sua mais absoluta amplitude. Quando estiver pronto, faça a diferença na vida de alguém.



São os pequenos momentos que fazem da vida GRANDIOSA.


Segue o texto na íntegra:

DO OUTRO LADO DA JANELA

Dois homens, ambos gravemente doentes, estavam no mesmo quarto de hospital.

Um deles, podia sentar-se na sua cama durante uma hora, todas as tardes, para que os fluidos circulassem nos seus pulmões. A sua cama estava junto da única janela do quarto.

O outro homem tinha de ficar sempre deitado de costas.

Os homens conversavam horas a fio.
Falavam das suas mulheres e famílias, das suas casas, dos seus empregos, onde tinham passado as férias... 
E todas as tardes, quando o homem da cama perto da janela se sentava, ele passava o tempo a descrever ao seu companheiro de quarto todas as coisas que ele conseguia ver do lado de fora da janela.

O homem da cama do lado começou a viver à espera desses períodos de uma hora, em que o seu mundo era alargado e animado por toda a atividade e cor do mundo do lado de fora da janela.

A janela dava para um parque com um lindo lago. Patos e cisnes chapinhavam na água enquanto as crianças brincavam com os seus barquinhos. Jovens namorados caminhavam de braços dados por entre as flores de todas as cores do arco-íris. Árvores velhas e enormes acariciavam a paisagem, e uma tênue vista da silhueta da cidade podia ser vista no horizonte...

Enquanto o homem da cama perto da janela descrevia isto tudo com extraordinário pormenor, o homem no outro lado do quarto fechava os seus olhos e imaginava a pitoresca cena.

Um dia, o homem perto da janela descreveu um desfile que ia a passar. Embora o outro homem não conseguisse ouvir a banda, ele conseguia vê-la e ouvi-la na sua mente, enquanto o outro senhor a retratava através de palavras bastante descritivas.

Dias e semanas passaram. Uma manhã, a enfermeira chegou ao quarto trazendo água para os seus banhos, e encontrou o corpo sem vida do homem perto da janela, que tinha falecido calmamente enquanto dormia. Ela ficou muito triste e chamou os funcionários do hospital para que levassem o corpo.

Logo que lhe pareceu apropriado, o outro homem perguntou se podia ser colocado na cama perto da janela.

A enfermeira disse logo que sim e fez a troca. Depois de se certificar de que o homem estava bem instalado, a enfermeira deixou o quarto.

Lentamente, e cheio de dores, o homem ergueu-se, apoiado no cotovelo, para contemplar o mundo lá fora. Fez um grande esforço e lentamente olhou para o lado de fora da janela... que dava, afinal, para uma parede de tijolo!

O homem perguntou a enfermeira o que teria feito com que o seu falecido companheiro de quarto lhe tivesse descrito coisas tão maravilhosas do lado de fora da janela.

A enfermeira respondeu que o homem era cego e nem sequer conseguia ver a parede.

"Talvez ele quisesse apenas dar-lhe coragem..."